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Resumos

A escrita por testemunha: Eça de Queirós, Oliveira Martins e Guerra Junqueiro
Monica Figueiredo | Universidade Federal do Rio de Janeiro

Não se pode negar que a história do século XIX português reúne de forma espetacular acontecimentos que viriam marcar e definir o Portugal dos séculos vindouros. A fuga da Família Real em 1808 abre um período de instabilidade que testemunhará invasões francesas, ocupação inglesa, influência espanhola, guerra civil, levantes populares, governos despóticos, regenerações fracassadas e um “ultimatum” humilhante. Tempo de dúvidas e de incertezas, o século vitoriano parece agregar – tal qual o sagrado dionisíaco – o puro e o impuro, a criação e a destruição, o prazer e a dor de forma indissociável.

Diante de momentos de crise extremada, surge a vontade do testemunho que se firma como necessidade de sobrevivência. O inominável provoca a emergência “do contar aos outros”, implica numa forçosa dialogicidade que tenta tornar a todos participantes. Usado como instrumento de resistência, ou antes, de sobrevivência, “a narração do trauma” implica num desejo de reconstrução e de renascimento.  Diante da ferocidade do real histórico, a imaginação “é chamada como arma que deve vir em auxílio do simbólico para enfrentar o buraco negro do real do trauma”. O trauma encontra na imaginação “um meio para sua narração. A literatura é chamada diante do trauma para prestar-lhe este serviço” (SELIGMANN-SILVA, Márcio. “Narrar o trauma: escrituras híbridas das catástrofes”. In: Revista Gragoatá. Niterói: Eduff, no. 24, 2008, pp. 101-117, p. 106).

Este trabalho pretende averiguar como a historiografia de Oliveira Martins, a poesia de Guerra Junqueiro e a ficção de Eça de Queirós lidaram com os desmandos do seu tempo referencialmente histórico. Partindo da assertiva “a escrita por testemunho”, interessa questionar como a exaltada “república” de Junqueiro, o furioso iberismo de Oliveira Martins e o desalento decadentista de Eça de Queirós não foram afinal construções literárias que testemunharam o difícil exercício de sobreviver em meio a um mundo em dissolução.

 

A Geração de 70 e a República Brasileira: Alguns Recortes
Elza Miné | Universidade de São Paulo

A comunicação tem em vista focalizar como alguns integrantes da Geração de 70 portuguesa perceberam, pensaram e se manifestaram por ocasião da proclamação da República no Brasil. Terá em conta, para tanto, a participação que esses escritores tiveram na imprensa brasileira, as relações de amizade por eles  mantidas com brasileiros, bem como se voltará para as revistas A Ilustração: Revista de Portugal e do Brasil (1884-1892) e a Revista de Portugal (1889-1892) dirigidas, respectivamente, por Mariano Pina e Eça de Queirós. Possíveis conseqüências da mudança de regime de governo no Brasil em terras portuguesas serão também consideradas.

 

A lei, o erro, os erros da lei e os camponeses de Finisterra
Rosa Maria Martelo | Universidade do Porto

Na obra de Carlos de Oliveira, a lei é muitas vezes descrita como uma forma de transmissão oficial do erro, de um erro antigo, primordial. A minha comunicação procurará dilucidar as razões desta perspectiva, bem como as suas consequências no que respeita à posição do escritor perante “a agonia republicana”, e terá como ponto de partida a relação do romance Finisterra, de Carlos de Oliveira, com O Pobre de Pedir, de Raul Brandão.

 

A peregrinação ou o outro livro das maravilhas
Francisco Lima | Universidade Estadual de Feira Santana

As viagens de descobrimento propiciaram verdadeiros encontros inaugurais — aqueles nos quais um eu se defronta com uma alteridade irredutível a qualquer perspectiva de assimilação imediata, por escapar a toda e qualquer moldura que se lhe tente impor. Impedido de agir, o aparelho mental cede lugar ao olhar, que, ofuscado por uma espécie de cintilação do real, imerge numa festa de cor e luz, maravilhado pela estranheza em si mesma, ante a qual, como num gozo, se delicia autônoma e soberanamente. A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto é um impressionante depósito dessas maravilhas, o que obriga o narrador a viver, com uma avidez desmedida, em permanente estado de deslumbramento frente à inabordável diversidade do mundo real. Mostrar algumas poucas dessas passagens e de como funciona esse processo de maravilhamento neste que se pode com justiça chamar de o outro livro das maravilhas é o que pretende a comunicação.

 

A poesia moderna de intervenção ideológica: Poesia 61
Jorge Fernandes da Silveira | Universidade Federal do Rio de Janeiro

Para que se estabeleçam hipóteses de reflexão que permitam investigar as relações entre o discurso literário e o discurso histórico, por meio da leitura da obra coletiva Poesia 61, a comunicação proposta limita-se a dois pontos principais:

  1. o contexto poético em que, em Maio de 1961, Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Luiza Neto Jorge e Maria Teresa Horta publicam, respectivamente, as suas “plaquetes”, Canto Adolescente, Morfismos, A Morte Percutiva, Quarta Dimensão e Tatuagem;
  2. as articulações entre o texto literário e o contexto histórico.

Para a exposição do primeiro ponto, serão apresentadas características dos cinco livros envolvidos com o título Poesia 61, em diálogo com a poesia sua contemporânea. Para o desenvolvimento do segundo ponto, de acordo com o tema sugerido, há duas datas importantes e, literalmente, limites a considerar: o ataque do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) a quarteis e prisões de Luanda, em 4 de Fevereiro de 1961, e o assassinato do escultor e gravurista José Dias Coelho, em 19 de Dezembro de 1961. Entre a guerrilha na colônia e o crime na metrópole, os textos dos Poetas 61 serão ser lidos como um exemplo de “poesia moderna de intervenção”, cujo gesto de escrita ainda hoje atual à © a reivindicação de um realismo de linguagem atento ao quotidiano e contrário a toda e qualquer aproporiação do literário como agente de propaganda ideológica e política.

 

A presença do mar em Camões e Fernando Pessoa
Cleonice Berardinelli | Universidade Federal do Rio de Janeiro

Dois grandes poetas olham para o mar e nele vêem descobridores e descobertas: o momento inicial, com o Infante D. Henrique (Lus. V, 4; VIII, 37), (Mensagem – "A Cabeça do Grypho" em "O Timbre"; "O Infante", em "Mar Portuguez"); o momento culminante, com Vasco da Gama (Lus. VI, 92), (Mensagem, "Ascenção de Vasco da Gama").

 

A responsabilidade dos homens de letras: Vergílio Ferreira e Miguel Torga
Rosa Goulart | Universidade dos Açores

Sendo dois autores em que a auto-análise ocupa um espaço relevante, tal  como o dão a entender as muitas páginas de diário que um e outro escreveram, Vergílio Ferreira e Miguel Torga foram também dois autores com uma enorme apetência para analisar o que se passava à sua volta. Reflectindo, um e outro, o espaço geográfico em que lhes foi dado nascer e viver, foram também altamente sensíveis aos destinos da Pátria que lhes moldou o respectivo percurso de cidadãos e de escritores. A obra literária que escreveram representa alguns dos momentos de crise que ela atravessou, mas insinua também que, sendo arte, segue um rumo próprio, onde a «crise do Estado» se projecta nela segundo figurações que relevam a capacidade de cada um deles para interpretar lucidamente, e à sua maneira, os «sinais do tempo» que foi o seu e até para o contradizer. Por essa razão, a «agonia republicana», vertida em arte, pode bem ser a felicidade da escrita.

 

Abelaira, o neo-realismo e as máscaras de Perséfone
Lélia Duarte | Universidade Católica de Minas

“Por que não se lêem mais os neo-realistas?” perguntava Abelaira a um público de professores e estudantes da PUC Minas, numa das vezes em que esteve em Belo Horizonte (1996).  Essa questão indicaria certamente a tensa relação do autor de Outrora agora com o Neo-realismo: a sua ligação com as vertentes utópicas que geraram o movimento e suas reinvindicações, bem como a  nostalgia de uma geração que sofria o fracasso de seus ideais e buscava recuperar, na tradição cultural, alimento  para a sua esperança. Minha intenção é comentar essa complexidade e seus desdobramentos, que poderiam ser observados nos próprios textos de um autor que discute essas questões ideológicas também no plano da construção literária: distanciando-se do Neo-realismo, especialmente pela valorização da figura do receptor textual, Abelaira elabora testemunhos e contradições no tom irônico que caracteriza um autor que sabia, desde sempre, que um texto é feito de múltiplas escrituras, ao mesmo tempo desmascaradoras e atentas em guardar um segredo que nunca ninguém pode ou deve desvendar. Poderei talvez concluir que a obra de Abelaira elabora máscaras de Perséfone, ao falar de restos e de rastros, valorizando a auto-evidência, o inacabamento, a vacilação e a presença de uma força subtrativa que impede a fixação de sentidos. Vislumbraria assim a decepção do autor com a incapacidade da linguagem de mobilizar o outro para resolver problemas – fossem eles relativos a políticas ditatoriais ou à ditadura da morte, da qual não pode fugir o ser humano a não ser pelo labor artístico.

 

Antero e Eça: Utopias e aporias da Res Publica
Isabel Pires de Lima | Faculdade de Letras da Universidade do Porto

Antero e Eça, da juventude à morte relativamente precoce, viveram em comum – convergindo e divergindo – utopias estéticas e ideológicas, as quais tiveram quase sempre no horizonte a res publica. Algumas delas conduziram-nos a aporias face às quais reagiram estética e individualmente de modo distinto, embora por vezes em diálogo subtil, ora mais ora menos implícito. São essas utopias e aporias e esses movimentos de aproximação e distanciamento que nos propomos abordar.

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António Lobo Antunes – Por uma democracia com memória
Margarida Calafate Ribeiro | Universidade de Coimbra

A obra de Lobo Antunes relembra constantemente aos seus leitores as dores da história portuguesa recente – a longa ditadura fascista de 48 anos e as suas heranças na actualidade e a brutalidade do sistema colonial em África, finalizado por uma longa guerra, igualmente brutal, cujos despojos perpassam toda a  sua obra. A partir da análise de algumas obras de António Lobo Antunes analisarei estes dois fenómenos na representação literária e na memória da sociedade portuguesa contemporânea, mostrando o quanto o autor exige aos seus compatriotas uma democracia com memória. Desta forma a ficção de Lobo Antunes questiona o título deste painel e ao fazê-lo questiona e aprofunda o que Boaventura de Sousa Santos e Leonardo Avritzer defenderam no texto inicial de Democratizar a Democracia: os caminhos da democracia participativa, “Para ampliar o cânone democrático”, ao colocar o factor da memória como um fundamento da construção de uma democracia.

 

Cravos Brancos, vermelhos, celebração e sofrimento
Vilma Arêas | Universidade Estadual de Campinas

Análise de dois livros de 1978 -O dia dos prodígios, de Lídia Jorge e Sem tecto entre ruínas , de Augusto Abelaira-  do ponto de vista da figuração da Revolução nesses livros impor, ou não, novas escolhas estéticas.

 

Da certeza das “Vidas Novas” à “História Real de um Amor Impossível”
Laura Padilha | Universidade Federal Fluminense

Esta comunicação, a partir de duas obras pontuais - Vidas Novas (1962/1968), de Luandino Vieira e O Quase Fim do Mundo (2008), de Pepetela -, pretende surpreender dois momentos da literatura angolana, quais sejam o da confiança na construção futura de uma democracia participativa e o da certeza da impossibilidade de realizá-la plenamente. Ambas as obras se ligam pelo fato de se projectarem como escritas para a liberdade.

 

Democracia e comunitarismos
Benjamin Abdala | Universidade de São Paulo

Neste momento de pós-crack do capitalismo financeiro de 2008 e de reconfigurações de estratégias dos estados nacionais diante do processo globalizador, parece-nos imprescindível que a crítica assuma uma atitude mais ativa para criar ou redesenhar, com matização mais forte, tendências de cooperação e solidariedade. Em termos de aproximações lingüístico-culturais, impõem-se horizontes plurilíngües e reciprocidades em relação às formas de poder simbólico.

 

E U É? Configurações actuais da lírica galego-portuguesa
João Dionísio | Universidade de Lisboa

As alternativas a um cânone essencialista assente em delimitações periodológicas fechadas sobre si próprias parecem ter contribuído para uma recolocação da poesia trovadoresca na história da literatura portuguesa. Tal reposicionamento aparente não é alheio a uma disputa territorial em torno deste conjunto de textos travada entre diferentes comunidades interpretativas. É minha intenção traçar brevemente o perfil destas comunidades para depois ensaiar o escrutínio de linhas comunicantes entre certos aspectos da poética trovadoresca e escritores dos últimos dois séculos.

 

Ensino da Literatura e Cidadania
António Nóvoa | Universidade de Lisboa

Resumo a apresentar brevemente

 

Florbela: A República das Letras e do Amor
Maria Lúcia Dal Farra | Universidade Federal do Sergipe

Não resisto à tentação de pensar a Florbela da epistolografia amorosa com António Guimarães (1920-1925) como de uma vítima exemplar e dialética do lado mais obscuro da Primeira República Portuguesa. A formação republicana oferecida a ela por João Maria Espanca, seu pai, que havia sido perseguido como tal na época da monarquia; a influência ideológica de Raul Proença sobre a obra nascente da poetisa; o engendramento do projeto literário intitulado Alma de Portugal, com que, em 1916, Florbela tomara o partido mais progressista da Primeira República - me levam a especular que o seu arrebatamento por Guimarães incluía mais do que uma forte atração amorosa de uma mulher por um homem. Como integrante da então heróica Guarda Nacional Republicana, este que seria o seu segundo marido pertence à própria sustentação dessa utópica República apoiada pelas imagens masculinas do seu imaginário: pelo seu pai, pelo seu irmão e pelo intelectual que ela tanto estimava e admirava. O relacionamento apaixonado com Guimarães, que implica em índices de assombramentos, fantasmagorias e sobressalto das “prevenções” a que o amante está sujeito, parece cumprir uma curva semelhante à do degenerescer da Primeira República, com seu conseqüente desembocar no caos ainda mais tenebroso do Estado Novo.

 

Gil Vicente: de ontem para hoje
Maria Theresa Abelha Alves | Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

“Quem chamar Gil Vicente de autor do século XVI comete erro grave”. Esta polêmica afirmação do poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, é o ponto de partida para o estabelecimento do diálogo passado-presente a partir dos autos vicentinos. Se a realidade do século XVI foi captada criticamente, castigando seu tempo, Gil Vicente assumiu um significado utópico-social, comprometido com a res pública, e o fez mediante o riso, como apreciação e julgamento. Documentando as relações do homem com as máscaras por ele assumidas na sociedade quinhentista, o teatro de Gil Vicente mostrou-se político e didático. Também o teatro que documenta a crise da época em que a individualidade cedeu lugar à mundialização tem apelado para o riso como ferramenta desalienante e arma de conscientização, nomeadamente aquele que afirma a filiação vicentina. A comunicação proposta se atém a dois aspectos dos autos que são reaproveitados pelos dramaturgos contemporâneos: 1) a “modernidade” da estrutura das obras e a sondagem ao absurdo; 2) a emergência, através do humor, do contexto no texto.

 

História como profecia, profecia como história: Fernão Lopes, António Vieira e Oliveira Martins
Helder Macedo | King’s College Londres

Esta comunicação visa a relacionar os contrastantes usos retóricos da profecia e seus equivalentes deterministas modernos nas obras dos três autores: por Fernão Lopes como confirmação histórica do passado; por António Vieira como antecipação histórica do futuro ; por Oliveira Martins como predeterminação histórica do presente no passado.

 

Jorge de Sena e a releitura dos clássicos portugueses – um preâmbulo
Gilda Santos | Universidade Federal do Rio de Janeiro

Se tomássemos o famoso livro de Ítalo Calvino como base para uma conceituação de autor “clássico”, decerto uma comunicação com o título de “Jorge de Sena e a releitura dos clássicos portugueses” poderia integrar praticamente todas as sessões deste congresso, visto que, tirando os autores mais jovens, não há nomes aqui selecionados que não tenham merecido o olhar crítico de Sena.

No entanto, justaposta a comunicações que tratam da Poesia Trovadoresca, de Gil Vicente e de Fernão Mendes Pinto, parece mais coerente que ela circunscreva ao Quinhentismo o raio dessa releitura seniana. Ainda assim, não é fácil a tarefa de proceder a um recorte em meio à infinidade de páginas que Sena dedicou a textos e contextos desse período. Acenheiro, Garcia de Resende, Bernardim Ribeiro, D. João de Almeida, Sá de Miranda, Diogo Bernardes, António Ferreira, Luís de Camões... que autor Sena não releu?

Explicitado o dilema, que radica na dificuldade de comprimir em poucas laudas e rápidos minutos o muito de reflexão que Sena nos legou em análises sobre o período, opto por me deter numa obra, salvo erro pouco mencionada, que reúne não só temas e autores emblemáticos do Quinhentismo, como também perspectivas de abordagem crítica próprias de um Jorge de Sena maduro, nas quais não faltam elos com antecedentes medievais e com desdobramentos seiscentistas (e mesmo posteriores). Refiro-me à sua obra monumental Estudos de História e de Cultura cuja publicação em fascículos se inicia em outubro de 1963 (quando ainda se encontrava no Brasil) e se conclui em novembro de 1969 (já nos Estados Unidos), sempre pela revista Ocidente.

Deste conjunto, os 29 fascículos iniciais ganharam formato de livro em 1967, ficando os restantes 15 prometidos para um volume II, que até o momento não foi publicado. Dos quatro capítulos que compõem a coletânea, deixarei de lado “A família de Afonso Henriques”, “O Vitorianismo de Dona Filipa de Lencastre” e “Os painéis ditos de ‘Nuno Gonçalves’”, para examinar as 495 páginas ocupadas pelo colossal ensaio “Inês de Castro, ou literatura portuguesa desde Fernão Lopes a Camões, e história político-social de D. Afonso IV a D. Sebastião, e compreendendo especialmente a análise estrutural da Castro de Ferreira e do episódio camoniano de Inês”, cujo longo título auto-explicativo bem dimensiona o ambicioso projeto de Sena e bem justifica sua escolha para a presente comunicação.
 

Literatura e legitimização (Herculano, Mário Cláudio e Saramago)
Maria de Fátima Marinho | Universidade do Porto

Neste pequeno ensaio tentaremos dar conta da importância que a legitimação histórica tem assumido na produção literária dos dois últimos séculos. À tentativa clara e inequívoca de Herculano de produzir textos que, directa ou indirectamente, tivessem um papel fulcral na consolidação da nacionalidade, contrapõem-se os escritos de Mário Cláudio e Saramago, simuladores de práticas só aparentemente privadas.

O contínuo retomar de figuras e factos do passado, vislumbrados com uma lupa desfocada e enganadora, transforma obras como as que compõem a Trilogia da Mão, Camilo Broca ou Gémeos em receptáculos indirectos da memória. Igual ilação se pode tirar a propósito de Levantado do Chão, A Quinta das Virtudes, O Pórtico da Glória ou Tocata para Dois Clarins, construtores de uma identidade que se afirma individual e se adivinha colectiva. É esse carácter ambíguo, constantemente enganador, que condiciona o aparecimento de romances como O Evangelho Segundo Jesus Cristo ou Memorial do Convento, tacitamente explicitados pela problemática levantada em História do Cerco de Lisboa.

Obras fundadoras do conceito de nacionalidade, de identidade histórica (pública ou privada), de legitimação epistemológica, os romances citados são marcos indiscutíveis de definição literária da modernidade portuguesa.

 

Mitologia Republicana
Eduardo Lourenço | Universidade de Nice

Resumo a apresentar brevemente

 

Na senda de Orpheu – Alicerces e consequências (algumas notas)
Paula Morão | Universidade de Lisboa

Tomando como eixo da modernidade na poesia portuguesa a revista Orpheu (1915) e as obras dos que nela participaram, procurar-se-á definir que outros poetas, na segunda metade de oitocentos, eles reconhecem  explicitamente como alicerces e modelos. Questões técnicas como as da versificação e as do ritmo, ou como a oralidade e a problematização do sujeito que diz eu nos poemas serão abordadas na perspectiva da construção do discurso modernista. Por sua vez, este aponta linhas seguidas nos que se lhes sucedem ao longo do século XX – uns, voltando a processos mais canónicos e experimentados, outros prosseguindo o estilhaçar de categorias e modos a que os de Orpheu deram voz.

 

Não há coincidências: O ano de 1968 na ficção portuguesa contemporânea
Carlos Reis | Universidade Aberta

A produção literária de José Cardoso Pires e a de Augusto Abelaira podem ser consideradas momentos de viragem no contexto da ficção portuguesa contemporânea. O ano de 1968, que registou, na história e na cultura do Ocidente e também na história de Portugal, acontecimentos de uma relevância extrema (uma relevância que nas décadas seguintes, até à viragem do fim de século, viria a ser confirmada), foi também o da publicação de dois títulos decisivos: O Delfim e Bolor. Trata-se de dois textos que bem podem ser considerados axiais, na obra de cada um dos ficcionistas em apreço: eles dialogam com um antes e com um depois das respectivas obras ficcionais e também da literatura portuguesa. Questões como a inscrição do sujeito na narrativa ou a articulação de temas e de formas pós-modernistas estão no centro desse diálogo.

 

O Ethos da paródia na poesia de Alexandre O’Neill
Clara Crabbé Rocha | Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa

Esta comunicação incidirá sobre o alcance da performance parodística na poesia de Alexandre O’Neill: em certas ocasiões, ela é um processo de dinamitagem da instituição literária - é o caso, por exemplo, da paródia de formas poéticas fixas, da paródia aos estereótipos da visitação poética, das artes poéticas “às avessas”, etc. - ; noutras, revela-se como uma paradoxal forma de homenagem à tradição literária; noutras ainda, é um modo de representação da realidade histórica e social, de denúncia e de responsabilização.

 

O grande teatro da República
Fernando Cabral Martins | Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa

Com a revolução republicana, criam-se, de 1910 a 1917, novas poéticas e novos regimes da imaginação. É a revolução modernista, em que o século XX assentará: a teatralidade é a sua marca geral.

  1. Nesses anos, talvez a presença mais visível seja a de Sá-Carneiro, com a sua actuação ao mesmo tempo provocatória e decadente, publicada em quatro livros e em revistas como Orpheu – e que há-de ter, logo na década de 20, directa descendência em José Régio.
  2. A erupção da Vanguarda está ligada, como seu lugar por excelência, a um teatro em Lisboa chamado Teatro República, onde Almada realiza em 1917 uma conferência futurista. Não será propriamente uma manifestação republicana. Mas é, entre todos, um momento de revolução. A arte de Almada, de performatividade radical e colocada na intersecção de poesia, dança e pintura, há-de conduzir à de Cesariny nos anos 40.
  3. Outra figura maior é a de Pascoaes, diametralmente oposta à de Pessoa mas, tal como ele, interessada em participar na construção de um novo país. Ele tornou-se o autor da mais extravagante ópera política, religiosa e lírica desse Grande Teatro da República.
 

O tempo condicional: Questões de identidade em Helder Macedo e Lídia Jorge
Jane Tutikian | Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Trata das questões  fundamentais da identidade portuguesa, na obra de Helder Macedo e na obra de Lídia Jorge, a partir dos acontecimentos históricos, sociais e econômicos do nosso tempo.

 

Pessoa: Corte e continuidade
José Carlos Seabra Pereira | Faculdade de Letras, da Universidade de Coimbra

Nas primeiras décadas de Novecentos, marginalizando as manifestações dissonantes de modernidade estético-literária, prolongam-se correntes e estilos epocais do fim-de-século, embora umas vezes em regime epigonal e outras em regime de metamorfose na dominante desse período – o Neo-Romantismo e suas três correntes (vitalista, saudosista, lusitanista). Como se tornaria proverbial, não escaparam a Fernando Pessoa o pendor homeostático dessa dominante histórico-literária para se reacomodar ao que Gombrich chamou a”lei das tradições”, nem as limitadas potencialidades de transformação inovadora que a popperiana «lógica das situações» então oferecia em Portugal também a nível do devir do metassistema ideológico-social. É talvez no Livro do Desassossego, e sobretudo no tom do último Campos, que ele ganha a partir de 1932, que mais veementemente Fernando Pessoa e o nosso Modernismo se situam perante um tempo que colhe em frutos de intranquilo cepticismo e de angustiante incerteza a semente do negativismo crítico de Oitocentos. Daí o agudizar, em registo mais pós-decadentista ou mais proto-existencialista, dos principais motivemas pessoanos da negatividade e a reiterada autoconformação ao amargo e irónico niilismo transcendental. Todavia, «ser moderno é escapar às regras e dizer cousas inúteis».

 

Quem é a geração de Maria Velho da Costa. Uma geração de mulheres?
Manuel Gusmão | Universidade de Lisboa

Tereza Horta e Isabel Barreno: As novas cartas portuguesas; mas não só: Maina Mendes; e Luiza Neto Jorge e Fiama: a poesia insubmissa no comando. Por isso, também Armando Silva Carvalho: as armas brancas; ou o romance diferente: Nuno Bragança: A noite e o riso. Armando da Silva Carvalho: Portuguex

As Casas Pardas. Um lustre que treme: a “primavera” marcelista obrigada ao excesso de uma outra e verdadeira primavera. Nuno Bragança: Directa. A exemplo de Cristo em directa até ao fim dos tempos, um homem fala aos séculos.
 

Tão morta e tão roída de vermes? Viagens de Camilo e Garrett por aquela nossa terra
Maria Fernanda de Abreu | Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

“As comemorações dos 100 anos da República Portuguesa exigem um trabalho da memória em que o olhar do presente revisite as vertentes utópicas que a geraram, o empenho intelectual que a sustentou, a aposta de modernidade que ela continha e que desejaria ter visto prolongar-se por mais tempo do que a história verdadeiramente registou”, lemos na apresentação programática deste Colóquio.

Na historiografia portuguesa é consensual que Garrett foi um dos construtores do romantismo-liberalismo em Portugal não só na sua vertente literária mas também na ideológica, política e cívica. Menos, muito menos o é a ideia que desde há muito sustento de que também Camilo se empenhou em revisitar a história da pátria e em contá-la com  um objectivo inequivocamente interventivo na construção de uma nação renovada. Com esse fim, refez-lhe a memória, “esgueirando[-se] para as fórmulas do romance”.  Desde os primeiros anos da sua actividade de escritor.

Com o objectivo de observar alguns desses gestos mnémicos, percorrerei um trajecto que vai desde “esta minha terra tão morta e tão roída de vermes” (1948) até, poucos anos atrás, as Viagens na Minha Terra. E destas àqueles. Está o jovem Camilo a tentar responder ao projecto, talvez utópico, do seu mestre Garrett? E com que modos?

 

“A veemência do visível”: diálogos entre Sophia, Sena e Eugénio de Andrade
Ida Alves | Universidade Federal Fluminense

Na cultura portuguesa do século XX, três vozes poéticas são de importância inegável por sua produção estética e pelo posicionamento crítico frente a ações contra a liberdade e a dignidade humana: Sophia de Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena e Eugénio de Andrade.

Participantes, no primeiro momento de suas trajetórias literárias, da publicação Cadernos de Poesia, periódico que, nas décadas de quarenta e cinquenta, em três séries (1940-42, 1951 e 1952-53), foi espaço assinalável de discussão sobre os caminhos da lírica portuguesa moderna, cada um desses poetas construirá seu próprio trajeto e marcará a memória literária portuguesa com uma contribuição admirável que reflete a responsabilidade ética do escritor  a partir do cuidado com o lugar da poesia e a compreensão de sua ação sobre o mundo.

Esta comunicação pretende abordar não só a presença desses três poetas no referido periódico, como também, e especialmente, desenvolver uma reflexão sobre essas escritas a partir da noção de paisagem, que se configura em suas obras como uma arquitetura de sentidos a envolver a consciência do cidadão, a crença na força da palavra e a afirmação da poesia como gesto de resistência à reificação em prol de uma cultura libertária.

O estudo de paisagem será formulado a partir de uma compreensão teórico-crítica interdisciplinar entre poética, filosofia, psicanálise e geografia cultural. Seguindo a linha de abordagem da crítica temática francesa, que privilegia a relação entre sujeito, palavra e mundo, pretende-se uma análise do discurso poético entendido como elaboração predominantemente imagética. Nele a visualidade, mais do que um efeito do enunciado, é uma experiência representativa da própria construção da linguagem lírica, mais que isso é um meio de problematização da subjetividade e da identidade as quais, no poema, também se configuram ou se desfiguram a partir de experiências comuns do cotidiano.